Uma das maiores dificuldades do ser humano parece ser o fato de nunca conseguir analisar uma situação enquanto ela acontece, e a partir desse bloqueio, quase sempre dá tempo do problema criar mais seis cabeças.
Michael Jackson morreu, passou. E agora? O que representou esse cara estranho, que mudou de cor, foi morar na terra do nunca e tentou ser um tipo de Peter Pan que fazia troca-troca?
O cara foi simplesmente uma das figuras mais complexas e ilustrativas da nossa indústria cultural, e deve servir de base para discussões muito importantes a respeito de como consumimos arte, e especialmente de como esquecemos os limites da privacidade para satisfazer nossa sede por banalidade e intimidade alheia.
MJ é o último grande exemplar de uma cultura podre, que parece estar engolindo a si mesma. Não há mais grandes artistas. A forma como a informação circula livre destruiu completamente a possibilidade da indústria fonográfica de manter padrões de comportamento, mudança que foi em parte criada pela propria indústria. A partir do momento que as gravadoras abriram mão dos artistas de carreira, para dar atenção a músicos descartáveis, com prazo de validade curto, ela criou uma fome pelo nada, que quando ficou grande demais, abandonou os limites impostos pela indústria e tentou, ou melhor, tenta nesse exato momento devorar tudo, como uma praga.
Enquanto as gravadoras não abandonarem essa queda de braço estúpida com a liberdade de informação, seu futuro parece estar condenado.
Será tão dificil perceber que num mundo de futilidade, de consumo desenfreado, é preciso haver um retorno ao culto da música, não simplesmente como objeto descartável que é hoje, mas como um instrumento de mudança individual. Música muda as pessoas, e isso é um detalhe importante na hora de pensar como vendê-la. Por que não se investe de verdade na volta do vinil?! É o suporte mais belo que a música já teve e seria uma resposta ao virtual sem alma em que se transformou o hábito de ouvir música. Sem falar no valor elevado, que poderia pelo menos justificar os preços astronômicos que o o comércio da música sempre gostou de praticar. É um registro justo para o artista, interessante para o fã, e rentável. É ou não é? Melhor abandonar essa figura de mecenas hipócrita e tratar isso como um negócio sério porra!
Mas de nada adianta a indústria mudar enquanto nós, consumidores, continuarmos os mesmos.
Quando vamos perceber que a forma como absorvemos a cultura é feia?
Michael Jackson foi o rei do pop, não apenas pelo impacto da sua música no mundo, mas também como um exemplar triste da crueldade que é nosso ritual de consumo.
Ela era um músico, nossa relação com ele deveria ser de receptores, de apreciadores da sua arte, e só.
O homem teve sua vida dissecada diante das lentes do mundo. Quem nunca se sentiu desconfortável ao ver alguém analisando suas ações? Agora imagine cada uma delas, o tempo todo, absorvidas, mastigadas e depois julgadas por um público tão vazio, que nem sequer argumentos racionais tem para justificar suas sentenças.
Nós consumimos a vida das figuras públicas, não sua proposta inicial, que é dividir seu trabalho.
Damos prioridade ao voyerismo insaciável, e não paramos para pensar o impacto que isso tem na vida do artista, que sim, talvez soubesse que ia enfrentar isso, mas não se pode ignorar o fato de que boa parte dos valores do próprio artista vieram dessa mesma máquina podre. E se esse entusiasmo fosse aplicado na forma como nos relacionamos com o poder público? Será que não é no senado que deveriamos colocar câmeras escondidas? Será que não era a vida do Sarney que a gente deveria conhecer, ao invés dos personagens de reality shows?
Pense, por exemplo, no tipo de publicação que realmente vende no nosso país? É inconcebível que aceitemos a existência de uma revista como a Caras. Como nos deixamos nivelar tão por baixo? Como permitimos que o que nos ofereçam seja tão desvirtuado e vazio. Sempre o isopor que bóia na superfície. E se a gente mergulhasse?
Que esse mergulho fosse na obra, que tem dentro de si a possibilidade de mudar completamente a forma que enxergamos a realidade, e não a vulgaridade que é ficar olhando pelo buraco da parede a vida de pessoas, que por sua profissão já recebem atenção exagerada. Será que não merecem descanso? Será que a gente não tá comendo a casca e jogando a fruta fora? Será que realmente somos esse juiz do mundo, que deve vasculhar a vida de cada pessoa que acaba caindo em seu radar?
A ligação entre comércio e arte põe em dúvida a legitimidade da própria arte. Mas o que é inquestionável é que precisamos rever nossa relação com ela e fazer da morte do Michael um ponto de partida, não a linha de chegada.
Sim, um pouco de falsa esperança pela manhã.
--
- Tá ouvindo o que aí nos fones?
- Michael Jackson...
- Viado do caralho!
- ?
Michael Jackson morreu, passou. E agora? O que representou esse cara estranho, que mudou de cor, foi morar na terra do nunca e tentou ser um tipo de Peter Pan que fazia troca-troca?
O cara foi simplesmente uma das figuras mais complexas e ilustrativas da nossa indústria cultural, e deve servir de base para discussões muito importantes a respeito de como consumimos arte, e especialmente de como esquecemos os limites da privacidade para satisfazer nossa sede por banalidade e intimidade alheia.
MJ é o último grande exemplar de uma cultura podre, que parece estar engolindo a si mesma. Não há mais grandes artistas. A forma como a informação circula livre destruiu completamente a possibilidade da indústria fonográfica de manter padrões de comportamento, mudança que foi em parte criada pela propria indústria. A partir do momento que as gravadoras abriram mão dos artistas de carreira, para dar atenção a músicos descartáveis, com prazo de validade curto, ela criou uma fome pelo nada, que quando ficou grande demais, abandonou os limites impostos pela indústria e tentou, ou melhor, tenta nesse exato momento devorar tudo, como uma praga.
Enquanto as gravadoras não abandonarem essa queda de braço estúpida com a liberdade de informação, seu futuro parece estar condenado.
Será tão dificil perceber que num mundo de futilidade, de consumo desenfreado, é preciso haver um retorno ao culto da música, não simplesmente como objeto descartável que é hoje, mas como um instrumento de mudança individual. Música muda as pessoas, e isso é um detalhe importante na hora de pensar como vendê-la. Por que não se investe de verdade na volta do vinil?! É o suporte mais belo que a música já teve e seria uma resposta ao virtual sem alma em que se transformou o hábito de ouvir música. Sem falar no valor elevado, que poderia pelo menos justificar os preços astronômicos que o o comércio da música sempre gostou de praticar. É um registro justo para o artista, interessante para o fã, e rentável. É ou não é? Melhor abandonar essa figura de mecenas hipócrita e tratar isso como um negócio sério porra!
Mas de nada adianta a indústria mudar enquanto nós, consumidores, continuarmos os mesmos.
Quando vamos perceber que a forma como absorvemos a cultura é feia?
Michael Jackson foi o rei do pop, não apenas pelo impacto da sua música no mundo, mas também como um exemplar triste da crueldade que é nosso ritual de consumo.
Ela era um músico, nossa relação com ele deveria ser de receptores, de apreciadores da sua arte, e só.
O homem teve sua vida dissecada diante das lentes do mundo. Quem nunca se sentiu desconfortável ao ver alguém analisando suas ações? Agora imagine cada uma delas, o tempo todo, absorvidas, mastigadas e depois julgadas por um público tão vazio, que nem sequer argumentos racionais tem para justificar suas sentenças.
Nós consumimos a vida das figuras públicas, não sua proposta inicial, que é dividir seu trabalho.
Damos prioridade ao voyerismo insaciável, e não paramos para pensar o impacto que isso tem na vida do artista, que sim, talvez soubesse que ia enfrentar isso, mas não se pode ignorar o fato de que boa parte dos valores do próprio artista vieram dessa mesma máquina podre. E se esse entusiasmo fosse aplicado na forma como nos relacionamos com o poder público? Será que não é no senado que deveriamos colocar câmeras escondidas? Será que não era a vida do Sarney que a gente deveria conhecer, ao invés dos personagens de reality shows?
Pense, por exemplo, no tipo de publicação que realmente vende no nosso país? É inconcebível que aceitemos a existência de uma revista como a Caras. Como nos deixamos nivelar tão por baixo? Como permitimos que o que nos ofereçam seja tão desvirtuado e vazio. Sempre o isopor que bóia na superfície. E se a gente mergulhasse?
Que esse mergulho fosse na obra, que tem dentro de si a possibilidade de mudar completamente a forma que enxergamos a realidade, e não a vulgaridade que é ficar olhando pelo buraco da parede a vida de pessoas, que por sua profissão já recebem atenção exagerada. Será que não merecem descanso? Será que a gente não tá comendo a casca e jogando a fruta fora? Será que realmente somos esse juiz do mundo, que deve vasculhar a vida de cada pessoa que acaba caindo em seu radar?
A ligação entre comércio e arte põe em dúvida a legitimidade da própria arte. Mas o que é inquestionável é que precisamos rever nossa relação com ela e fazer da morte do Michael um ponto de partida, não a linha de chegada.
Sim, um pouco de falsa esperança pela manhã.
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- Tá ouvindo o que aí nos fones?
- Michael Jackson...
- Viado do caralho!
- ?
