Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Sobre um homem que gostava de comer criancinhas

Uma das maiores dificuldades do ser humano parece ser o fato de nunca conseguir analisar uma situação enquanto ela acontece, e a partir desse bloqueio, quase sempre dá tempo do problema criar mais seis cabeças.

Michael Jackson morreu, passou. E agora? O que representou esse cara estranho, que mudou de cor, foi morar na terra do nunca e tentou ser um tipo de Peter Pan que fazia troca-troca?

O cara foi simplesmente uma das figuras mais complexas e ilustrativas da nossa indústria cultural, e deve servir de base para discussões muito importantes a respeito de como consumimos arte, e especialmente de como esquecemos os limites da privacidade para satisfazer nossa sede por banalidade e intimidade alheia.

MJ é o último grande exemplar de uma cultura podre, que parece estar engolindo a si mesma. Não há mais grandes artistas. A forma como a informação circula livre destruiu completamente a possibilidade da indústria fonográfica de manter padrões de comportamento, mudança que foi em parte criada pela propria indústria. A partir do momento que as gravadoras abriram mão dos artistas de carreira, para dar atenção a músicos descartáveis, com prazo de validade curto, ela criou uma fome pelo nada, que quando ficou grande demais, abandonou os limites impostos pela indústria e tentou, ou melhor, tenta nesse exato momento devorar tudo, como uma praga.

Enquanto as gravadoras não abandonarem essa queda de braço estúpida com a liberdade de informação, seu futuro parece estar condenado.
Será tão dificil perceber que num mundo de futilidade, de consumo desenfreado, é preciso haver um retorno ao culto da música, não simplesmente como objeto descartável que é hoje, mas como um instrumento de mudança individual. Música muda as pessoas, e isso é um detalhe importante na hora de pensar como vendê-la. Por que não se investe de verdade na volta do vinil?! É o suporte mais belo que a música já teve e seria uma resposta ao virtual sem alma em que se transformou o hábito de ouvir música. Sem falar no valor elevado, que poderia pelo menos justificar os preços astronômicos que o o comércio da música sempre gostou de praticar. É um registro justo para o artista, interessante para o fã, e rentável. É ou não é? Melhor abandonar essa figura de mecenas hipócrita e tratar isso como um negócio sério porra!

Mas de nada adianta a indústria mudar enquanto nós, consumidores, continuarmos os mesmos.
Quando vamos perceber que a forma como absorvemos a cultura é feia?

Michael Jackson foi o rei do pop, não apenas pelo impacto da sua música no mundo, mas também como um exemplar triste da crueldade que é nosso ritual de consumo.
Ela era um músico, nossa relação com ele deveria ser de receptores, de apreciadores da sua arte, e só.
O homem teve sua vida dissecada diante das lentes do mundo. Quem nunca se sentiu desconfortável ao ver alguém analisando suas ações? Agora imagine cada uma delas, o tempo todo, absorvidas, mastigadas e depois julgadas por um público tão vazio, que nem sequer argumentos racionais tem para justificar suas sentenças.
Nós consumimos a vida das figuras públicas, não sua proposta inicial, que é dividir seu trabalho.
Damos prioridade ao voyerismo insaciável, e não paramos para pensar o impacto que isso tem na vida do artista, que sim, talvez soubesse que ia enfrentar isso, mas não se pode ignorar o fato de que boa parte dos valores do próprio artista vieram dessa mesma máquina podre. E se esse entusiasmo fosse aplicado na forma como nos relacionamos com o poder público? Será que não é no senado que deveriamos colocar câmeras escondidas? Será que não era a vida do Sarney que a gente deveria conhecer, ao invés dos personagens de reality shows?

Pense, por exemplo, no tipo de publicação que realmente vende no nosso país? É inconcebível que aceitemos a existência de uma revista como a Caras. Como nos deixamos nivelar tão por baixo? Como permitimos que o que nos ofereçam seja tão desvirtuado e vazio. Sempre o isopor que bóia na superfície. E se a gente mergulhasse?
Que esse mergulho fosse na obra, que tem dentro de si a possibilidade de mudar completamente a forma que enxergamos a realidade, e não a vulgaridade que é ficar olhando pelo buraco da parede a vida de pessoas, que por sua profissão já recebem atenção exagerada. Será que não merecem descanso? Será que a gente não tá comendo a casca e jogando a fruta fora? Será que realmente somos esse juiz do mundo, que deve vasculhar a vida de cada pessoa que acaba caindo em seu radar?

A ligação entre comércio e arte põe em dúvida a legitimidade da própria arte. Mas o que é inquestionável é que precisamos rever nossa relação com ela e fazer da morte do Michael um ponto de partida, não a linha de chegada.

Sim, um pouco de falsa esperança pela manhã.

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- Tá ouvindo o que aí nos fones?
- Michael Jackson...
- Viado do caralho!
- ?

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Sobre a fragilidade da realidade

Interessante que quando questionamos o que é ou não real, agregamos um valor ao objeto observado, quando na verdade o valor está no observador.
Perceber que esse valor não é simplesmente exagerado, mas às vezes é totalmente incompatível com as características do objeto, deve ser o primeiro passo para ver as coisas como são.

Transferir qualidades suas para algo que não está preparado para comportá-las é catastrófico.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Sobre bar e boteco

Eu odeio bar, mas adoro boteco.

O bar nada mais é do que o boteco sem alma, e que você precisa pagar para entrar.
É a versão prostituída do mais rico ambiente das relações humanas.

Eu sempre achei curioso o fato das pessoas ficarem numa fila, esperando para entrar em algum lugar. Porra, você pressupõe que aquele lugar tenha algo realmente especial, ainda que a música que se ouve do lado de fora contradiga essa idéia. Ok, talvez a música seja uma bosta, e não represente realmente as pessoas que estão tentando entrar naquele local, portanto a motivação deve ser outra. O difícil é observar um comportamento que parece ser antagônico à sua proposta.

Você paga uma grana para entrar em um lugar, que geralmente é bastante apertado e sem conforto, pois há muitas pessoas ali dentro, e os seres humanos gostam de se relacionar com outras pessoas. Mas será? O que é comum é você perceber que depois de pagar, se espremer e ficar meio desconfortável, o sujeito continua sem se relacionar com as pessoas. Quando muito, mantém um contato com as pessoas que entraram junto com ele, mas essa comunicação é sempre prejudicada, seja pelo som alto ou por alguma calça mágica, ou como ouvi uma dama recentemente dizer, pacote mágico, que surge em seu campo de visão.

Então é isso? Você paga para entrar num lugar cheio de gentes, mas não conversa com essas gentes. Até o cheiro das gentes é difícil de sentir.

O boteco é o contrário disso. Na segunda vez que você entra num boteco, alguém já vai te chamar pelo nome, e isso faz diferença. Se for boteco de bairro então, saberão da tua vida toda em uma tarde.
Faz também a diferença estar num ambiente onde as pessoas falam umas com as outras, não simplesmente porque querem pegar alguém. No boteco se faz amigos, ou inimigos, mas pelo menos o calor do contato está lá. Boteco tem Rolmops, tem salsicha em conserva, ovo azul, mesa de sinuca, sem falar na imensidão de figuras peculiares que você pode explorar. É um verdadeiro exercício de observação e interação com a nossa fauna.
Há sempre um bêbado crônico, que parece morar dentro do recinto, e o mais engraçado, parece sempre ser um completo imbecil. Ai o cara abre a boca, e você descobre que mais um gênio se afoga na aguardente. No bar, é bem mais fácil você encontra rum indiezinho, metido a super alternativo, que monta sua indumentária e corre para um lugar fechado, para não se comunicar com os outros que ali estão trancafiados. A honestidade das relações do boteco são sua maior vantagem.

E o melhor: você ainda pode pedir pro dono do boteco tirar aquela música detestável que está tocando, simplesmente com um "coloca isso aqui Gersão".

Curitiba tem bares demais e botecos de menos.

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- Quando você me toca enlouqueço.
- E porque eu não percebo isso?
- ...

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Sobre os iluminados

A maioria de nós, humanos médios, de sonhos médios, nunca vai sair dessa condição de merda, de abelha operária, e criar algo que realmente mereça ser contemplado.

Mas há uma meia dúzia de filhos da puta que são diferentes. Enxergam diferente, percebem diferente e devolvem tudo isso de uma forma magnífica. Lazarentos.

Eu não posso falar quem é o melhor, não ouvi todos, mas o artista que mais me impressionou nos últimos anos chama-se Omar Rodriguez Lopes. O cara é um maldito gênio!
Não vamos entrar no The Mars Volta, sua banda principal, pois isso renderia dias. O intrigante nesse sujeito é que ele é um puta workaholic que não para de produzir música um segundo. Ele lança um álbum atrás do outro, e seria injusto sequer cita-los, pois cada um deles é fantástico. Tudo o que esse cara encosta fica foda, não é como aqueles caras que têm milhares de projetos, mas todos são uma bosta. Acho que quando ele envelhecer vai ficar igual o Herbie Hancock, fazendo umas experiências meio estranhas, cheias de tecnologia. Provavelmente o Hendix tivesse ido pro mesmo lado, esses caras são diferentes de nós.

O The Mars Volta parece ter se tranformado em um monstro que ele não consegue mais controlar, uma banda que tem vida própria e pulsa como uma carniça coberta de vermes. Ele dá nomes diferentes, mas a mente psicótica dele vai sempre para a mesma coisa desconfortável de ouvir, perturbadora de processar, e muito demorada pra digerir.

Pegue esse cara e misture com os doentes do Hella.

Você tem El Grupo Nuevo de Omar Rodriguez Lopez. Uma das coias mais interessantes e curiosas que já ouvi.

Já diz aquele provérbio chinês: tem uns cara foda.

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- ...mas mãe, eu não gosto disso.
- Come a tua comida Luiz Alberto, ou eu te arrebendo a cara aqui no meio de todo mundo, praga dos inferno. Criança desgraçada, encosto na minha vida.
- ...
- E come tudo!

Domingo, 7 de Junho de 2009

Sobre o The Wall

Sabe o que fode o The Wall?

O fato da imprensa ter descoberto a existência de Another Brick in the Wall.
Não fosse isso ele seria o Dark Side of the Moon, só que bem superior.
Até a estrutura dos títulos é parecida, mas isso é pura coincidência, nem vem.

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- Eu coloco só o dedo.
-Tá maluco? o dedo?! Pode machucar...

(não, seu leitor psicótico, que só pensa em sexo e vive em função de instinto, feito um animal selvagem. Eles estão discutindo o risco de ele tentar tirar a chave do carro que caiu dentro do triturador de lixo. por deus!)