Um dia houve essa garota.
Não se pode dizer que era um parto, afinal ela era apenas o fruto de uma união desastrosa. Ela era um pequeno pedaço de desgraça, que por força das circunstâncias, acabara por aqui.
Tamanha era sua insignificância, que sendo apenas mais uma de uma longa linhagem, que mais parecia uma ninhada de coelhos, ficava sempre pelos cantos, implorando a atenção de alguém, mas recebendo apenas a indiferença. E amigos, dizem que a indiferença mata.
Um dia chorou. Em meio a porcos e galinhas que corriam loucamente pelo quintal de terra. Chorou e não gostou. Resolveu mudar.
A partir de agora, não mais choraria. Iria fazer todos os que chegassem perto sofrer. Seu papel agora era de executora da sanidade. Ela esmagava corações e assassinava a razão.
É necessário dar o crédito à senhorita, era muito boa no que fazia. Dois olhos negros numa face pálida, que eram capazes de destruir qualquer um, inclusive a ela mesma, quando, eventualmente, tinha a audácia de olhar-se no espelho.
Sabia mentir, mas nunca fora convincente, especialmente com ela própria. Era uma dessas hipócritas muito mal sucedidas, que usava uma máscara para o mundo, mas era incapaz de olhar nos olhos. Todos os demônios que tinha dentro da cabeça eram apenas dela, nunca deixaria que alguém sequer se aproximasse. Entendia intimidade como risco, portanto se escondia em subterfúgios de suas próprias mentiras. Era uma cobra que havia engolido o próprio rabo, havia se enclausurado dentro dela mesma.
Convenhamos caro leitor, é muito fácil de se afeiçoar por alguém assim. Essas pessoas costumam ter um tipo de carisma meio mórbido, mas eficiente, sempre. Eles brilham de uma forma diferente, pois talvez esteja sugando a nossa luz, para depois nos abandonar feito imensos buracos negros, que sugam toda a vida em seu redor mas não voltam a produzir luz.
Ela era isso, um supermassive black hole. Se você é um fã de
Muse, sabe do que estou falando.
Todos diante dela eram tolos, e ela não era capaz de sequer os libertar.
A incerteza sobre seu futuro sempre a fez pensar em fugir, ainda que fosse para dentro de sua prórpia cabeça, e lá ela se escondia. Percebe o perigo extremo dessa pessoa? Intenções travestidas em pequenos detalhes, tudo arquitetando a grande destruição, que mais cedo ou mais tarde, ela iria promover publicamente.
Um dia desapareceu. Ninguém sabe para onde foi, se seu buraco negro de luz havia sugado a si mesmo. Para os que ficaram, sobrou um misto de saudade e alívio.
Adeus moça, não se pode dizer que foi um prazer, nem o pior dos pesadelos.
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- Não acredito em uma palavra que sai da sua boca.
- Eu sei, por isso digo apenas mentiras.
- Deus do céu Fernando! Como pode...
- Ainda tem café ali na caneca?